terça-feira, 9 de março de 2010

Saiu no VS

Segue a baixo matéria que saiu no jornal Vale dos Sinos no dia 1° de Março de 2010

Segundo dados, mais de 100 pessoas moram nas ruas de São Leopoldo

Prefeitura oferece cursos para mudar a díficil convivência com a população.

São Leopoldo - O verão torna mais visível um problema que preocupa administrações e a população da maioria dos grandes municípios gaúchos. Com as noites mais quentes, moradores de rua dormem nas calçadas, nas praças ou em outros espaços públicos. Somente em São Leopoldo, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (Sacis), existem pelo menos 100 pessoas adultas em situação de rua, muitas delas morando em locais como a Avenida Mauá – sob a elevada do trensurb –, a Praça 20 de Setembro, as proximidades do triângulo, entre outros. Também conforme a Sacis, não há casos de crianças vivendo nas ruas, mas de trabalho ou mendicância. E não há um número estabelecido.
A quantidade de pessoas dormindo nas ruas tem chamado a atenção da população, que se solidariza com a situação, mas que também teme pelas abordagens. Um leitor do Jornal VS, que prefere não se identificar, conta que há alguns dias foi assaltado por um morador de rua enquanto fazia a sua caminhada matinal, no Centro da cidade. Outro, funcionário de um posto de gasolina no bairro Rio do Sinos, diz que teve a bicicleta roubada por uma pessoa que costuma pedir dinheiro aos clientes. "Por essas e outras, temos medo quando alguém se aproxima."
A atendente de farmácia Bruna Martins diz que vê pedintes todos os dias perto do triângulo, em frente a um banco no Centro e um cartório na Rua Grande. "Sinto pena dessas pessoas, especialmente quando faz frio. Na semana passada estava bem frio de manhã quando vim trabalhar e ver uma pessoa com poucas roupas na rua é triste’’, disse Bruna, que conta já ter sido abordada por mendigos à procura de dinheiro, mas nunca de forma violenta.
REINTEGRAÇÃO - Para tentar minimizar os problemas, a Prefeitura aposta em projetos que, segundo o titular da Sacis, Fabio Bernardo da Silva, têm se mostrado eficientes. "Em primeiro lugar é preciso saber que a maioria dessas pessoas de rua sofreram diferentes tipos de violência para estarem nessa situação. Ninguém pode julgá-las, temos que ajudá-las e não apenas com o trabalho de higienização que é oferecido na cidade. Estamos fazendo mais que isso."
Ele cita como exemplo o grupo que vive embaixo do viaduto da Avenida João Corrêa, na BR-116. "Seria simples chegar ali e derrubar aquele barraco. A situação não estaria mais exposta, mas não deixaria de existir. Ao invés disso, preferimos fazer um trabalho de reintegração familiar e resgate da autoestima com essas pessoas. E tem dado certo. Em novembro, eram dez moradores, hoje são cinco’’, explicou. Fazem parte da ação ainda a desintoxicação e o acesso ao emprego. Além disso, estão sendo oferecidos cursos profissionalizantes aos moradores de rua.

Cursos representam esperança de uma vida melhor e mais digna
No Centro de Referência Especializado para População Adulta de Rua (Crepar) um grupo de 20 moradores de rua e pessoas que tiram seu sustento das ruas receberam informações sobre vagas em cursos profissionalizantes, que estão sendo viabilizadas pela Prefeitura e Pronasci. O objetivo é oferecer uma oportunidade para que possam dar um novo rumo para suas vidas, afirmou Jean Carlo Pereira Cardoso, integrante da equipe da Sacis, a qual o Crepar está vinculado.
A primeira turma, que formará pedreiros, já começa a ter aulas hoje, no Senai. Alexandre Mello Vieira, 26, está inscrito. "Quero fazer as aulas para azulejista e também para cozinheiro. Vou retomar minha vida.’’ As inscrições estão abertas no Crepar, Rua Jorge Naamann, 18, no Centro. As turmas fecham com 15 alunos e ocorrerão nos turnos da manhã, tarde e noite. Mais informações e inscrições pelo telefone 3592-5291.
SITUAÇÃO NO MUNICÍPIO
- São pelo menos 100 pessoas em situação de rua, sendo 88% do sexo masculino, 12% do feminino
- A faixa etária: 59% é de pessoas entre 18 e 29 anos; 39% entre 30 e 59 anos; e apenas 2% entre 60 e 80 anos
ABRIGO
- A prefeitura conta com o Albergue Municipal, onde atualmente dormem 27 pessoas, no Centro, e a Casa de Acolhimento, no Cristo Rei, para menores. Durante o dia, o albergue conta com o serviço Centro de Referência Especializado para População Adulta de Rua (Crepar) onde é feita uma retomada na vida das pessoas, como o encaminhamento de documentos, promoção de oficinas de cidadania, como esportes, e mesmo oferta de cursos profissionalizantes. "Não é em uma ou duas semanas que tudo vai se resolver, porque as pessoas têm que resolver seus problemas de autoestima, já que elas pensam que não servem mais para a sociedade’’, esclareceu Silva.
ABORDAGEM
- A abordagem da população adulta de rua é feita por três educadores e uma assistente social da Sacis. O trabalho com as crianças é feito pela organização não-governamental Programa de Apoio a Meninos e Meninas (Proame), mas o serviço deve ser assumido pela administração municipal, segundo Silva.
PUNIÇÕES
- Silva diz que nos casos de delitos cometidos por pessoas que vivem nas ruas, as vítimas devem procurar o Conselho Tutelar (no caso de menores de 12 anos) ou fazer registro na polícia nas demais situações. "O procedimento na ocorrência é o padrão. Não deve haver diferença por ser morador de rua. Acho que a ocorrência deve ser feita mesmo se for pelo roubo de um sabonete, pois servirá de castigo e aprendizado. Vivemos na cultura do "não dá nada", porque muitas vezes as vítimas também não cumprem sua parte’’, opinou.

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